Uma Dúzia de Livros - "Um livro fora da tua zona de conforto": Poesia Reunida, por Maria do Rosário Pedreira

Na escolha do mês de Fevereiro do Desafio Literário Uma Dúzia de Livros, o tema era "Um livro fora da tua zona de conforto". De imediato pensei em poesia: primeiro, por ser de facto um género literário com que tenho tido pouco contacto, e depois porque as últimas experiências que tive com a prosa mais poética têm alimentado a necessidade de ler poesia.

Posto isto, a escolha de Maria do Rosário Pedreira surgiu de uma forma muito natural. Conheci-a através de dois podcasts que sigo (A Beleza das Pequenas Coisas - episódio de 11 de dezembro de 2020 e Biblioteca de Bolso - episódio 06, já mais antigo) e fiquei rendida à sua postura assertiva acerca da literatura. Depois, tive contacto com o seu blogue Horas Extraordinárias, e tive a confirmação de que se trata de uma autora que merece a pena ser lida e reconhecida. Maria do Rosário Pedreira é a responsável pela descoberta de autores-maravilha como José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe ou Nuno Camarneiro. Por si só, este já era um fortíssimo indício do seu sentido de sensibilidade artística. Não me enganei.


Em Poesia Reunida vemos integrados num só volume quatro coletâneas de poemas da autora, sendo que as três primeiras correspondem a reimpressões intocadas de originais anteriormente publicados - A Casa e o Cheiro dos Livros, O Canto do Vento nos Ciprestes e Nenhum Nome Depois -, e a última a uma inédita coletânea intitulada A Ideia do Fim.

Se tivermos em conta que todos os poemas de desamor são, no fundo, poemas de um amor desesperado, então todos os poemas deste volume são autênticos e vorazes poemas de amor. A poeta vive nos seus versos um amor fatídico que mata mais do que nutre; um amor que a consome e devora como um fogo posto - com a intenção de queimar. É nesse estado desafogado que chegamos ao último conjunto de poemas para, por fim, encontrar o conforto do amor seguro, terno e constante: "(...) se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não/ atravesses a rua por uma sombra amiga,/ trago-te o chá e um chapéu quando voltar".

Nem sempre senti com a mesma intensidade emocional as palavras sofridas da autora, como aliás creio ser transversal; mas jamais fiquei indiferente à eloquência e sofreguidão destes poemas carregados de afetos de tantas e diversas valências.

Foi uma agradável experiência com a poesia, que acabou por me cativar ainda mais para este género literário que tanto tenho descorado. 

Deixo um dos poemas que mais me tocou:

Tenho medo da morte dos meus: medo
que me deixem e, ao mesmo tempo,
medo que não me deixem depois dela,
como dores rangendo em todo o corpo.

Pela morte dos meus, já tive mais
lágrimas do que para certas mortes
reais mas mais pequenas - feridas
de arder e deitar fora. Quando chorei

nessas mortes, chorei também a morte
dos meus; e, se chorei demais, fui
de certeza órfã, e viúva, e irmã perdida
de gémeos falsos, e amiga de ombro
subitamente inútil. Dos meus que já

morreram, guardo ainda demasiadas
lágrimas que não correm, mãos
estupidamente livres para quase nada.

Por isso, quando a noite se estende nos
seus silêncios vagos e eu penso tantas
coisas que não devia, peço sempre para ir

antes dos meus - de preferência, no luxo
do primeiro sono, sem lhes dar tempo
de sonhar sequer a minha morte. E,

enquanto os tenho, beijo-os talvez
excessivamente e agarro-lhes as mãos -
gosto de trocar com eles impressões
digitais.

Avaliação: 4/5*

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