Uma Dúzia de Livros - "Um livro fora da tua zona de conforto": Poesia Reunida, por Maria do Rosário Pedreira
Na escolha do mês de Fevereiro do Desafio Literário Uma Dúzia de Livros, o tema era "Um livro fora da tua zona de conforto". De imediato pensei em poesia: primeiro, por ser de facto um género literário com que tenho tido pouco contacto, e depois porque as últimas experiências que tive com a prosa mais poética têm alimentado a necessidade de ler poesia.
Em Poesia Reunida vemos integrados num só volume quatro coletâneas de poemas da autora, sendo que as três primeiras correspondem a reimpressões intocadas de originais anteriormente publicados - A Casa e o Cheiro dos Livros, O Canto do Vento nos Ciprestes e Nenhum Nome Depois -, e a última a uma inédita coletânea intitulada A Ideia do Fim.
Se tivermos em conta que todos os poemas de desamor são, no fundo, poemas de um amor desesperado, então todos os poemas deste volume são autênticos e vorazes poemas de amor. A poeta vive nos seus versos um amor fatídico que mata mais do que nutre; um amor que a consome e devora como um fogo posto - com a intenção de queimar. É nesse estado desafogado que chegamos ao último conjunto de poemas para, por fim, encontrar o conforto do amor seguro, terno e constante: "(...) se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não/ atravesses a rua por uma sombra amiga,/ trago-te o chá e um chapéu quando voltar".
Nem sempre senti com a mesma intensidade emocional as palavras sofridas da autora, como aliás creio ser transversal; mas jamais fiquei indiferente à eloquência e sofreguidão destes poemas carregados de afetos de tantas e diversas valências.
Foi uma agradável experiência com a poesia, que acabou por me cativar ainda mais para este género literário que tanto tenho descorado.
Deixo um dos poemas que mais me tocou:
Tenho medo da morte dos meus: medoque me deixem e, ao mesmo tempo,
medo que não me deixem depois dela,
como dores rangendo em todo o corpo.
Pela morte dos meus, já tive mais
lágrimas do que para certas mortes
reais mas mais pequenas - feridas
de arder e deitar fora. Quando chorei
nessas mortes, chorei também a morte
dos meus; e, se chorei demais, fui
de certeza órfã, e viúva, e irmã perdida
de gémeos falsos, e amiga de ombro
subitamente inútil. Dos meus que já
morreram, guardo ainda demasiadas
lágrimas que não correm, mãos
estupidamente livres para quase nada.
Por isso, quando a noite se estende nos
seus silêncios vagos e eu penso tantas
coisas que não devia, peço sempre para ir
antes dos meus - de preferência, no luxo
do primeiro sono, sem lhes dar tempo
de sonhar sequer a minha morte. E,
enquanto os tenho, beijo-os talvez
excessivamente e agarro-lhes as mãos -
gosto de trocar com eles impressões
digitais.

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