«The Collected Schizophrenias», por Esmé Weijun Wang
O principal motivo que me levou ler este livro prende-se com a minha profissão. Enquanto psicóloga, lido com a realidade de um dos diagnósticos mais pesados que já conheci - o das esquizofrenias. Mas o meu interesse por estas questões vai para além disso; sempre achei relevante ler testemunhos reais e autobiográficos daqueles que passam por realidades distintas da minha. É um treino à empatia que acredito que possa ser realmente benéfico a qualquer pessoa que se disponha a ele.
Esmé Wang foi diagnosticada com perturbação bipolar em 2001. Em 2005, quando tinha vinte e poucos anos, teve a sua primeira alucinação auditiva - uma voz que lhe segredava "odeio-te" enquanto tomava banho. Na sequência dessa alucinação, e passados anos de uma procura incessante por explicações, o seu diagnóstico foi atualizado para uma perturbação esquizoafetiva do tipo bipolar. O primeiro capítulo do livro pode ser um pouco difícil para pessoas que não sejam das áreas da saúde mental, mas é uma necessidade também para os leigos na matéria perceberem de que diagnósticos a autora fala e o que é que os distingue uns dos outros. Passando essas tecnicalidades, os ensaios tornam-se mais acerca da experiência subjetiva da autora do que sobre o conhecimento científico das perturbações em si. É esse carácter profundamente pessoal e íntimo das histórias relatadas que tornam estes ensaios tão singulares e relevantes.
Deste livro retive várias ideias, algumas das quais exponho de seguida.
No final do capítulo "Diagnóstico", Wang reflete sobre a possibilidade levantada por alguns autores acerca do carácter evolutivo das esquizofrenias. Segundo esses autores, a esquizofrenia não se terá extinguido por trazer vantagens evolutivas aos doentes. Essas vantagens prendem-se muito com a criatividade marcada existente em muitos doentes com esquizofrenia.
As tempting as this perspective is, I worry that seeing schizophrenia as a gateway to artistic brilliance glamorizes the disorder in unhelathy ways, therefore preventing suffering schizophrenics from seeking help. If creativity is more important than being able to maintain a sense of reality, I could make a plausible argument for remaining psychotic, but the price of doing so is one that neither I nor my loved ones are likely to choose to pay. [p.25]
Mais à frente, a autora leva-nos pelo mundo dos internamentos compulsivos, isto é, internamentos não voluntários, em que os doentes são submetidos a tratamento contra a sua própria vontade. Em Portugal, estes internamentos só são possíveis se o doente estiver em vias de causar dano a si próprio ou a outros. Para os profissionais de saúde e famílias de doentes, este é um tema de grande sensibilidade; se, por um lado, é desesperante querermos ajudar pessoas que, graças à sua doença, não têm consciência sequer de que estão doentes e que podem estar a colocar-se a si, ou a outros, em perigo, também é extremamente angustiante proceder a internamentos contra o parecer do próprio. Estamos a falar de situações extremamente delicadas, nas quais não existem soluções perfeitas: ou respeitamos a liberdade e autonomia do indivíduo, ou o protegemos dele próprio contra sua vontade. Wang foi internada compulsivamente três vezes, nenhuma das quais lhe trouxe, a seu ver, benefício. A autora fala dessas situações e também da opinião de um amigo seu que conheceu num desses internamentos:
He's better now, he tells me, because he was finally told that he himself knows better than anyone else what he needs. For him, that included harm-reduction techniques instead of involuntary rehabilitation, as well as estranging himself from his family. Because he could discern a method of recovery for himself, he believes that the issue of personal, bodily autonomy must take precedence. Plumadore says those with mental illness almost universally experience the effects of trauma when forced into treatment, and disagrees with "hurting someone in order to help them". "We have the ultimate decision about what we're going to allow into our bodies, what we're not, and the decisions that we make about our own lives", he said. [p. 37]
Da sua parte, acrescenta mais adiante:
My hope is that I'll stay out of those cages for the rest of my life, although I allow myself the option of checking into a psychiatric ward if suicide feels like the only other option. I maintain, years later, that not one of my three involuntary hospitalizations helped me. I believe that being held in a psychiatric ward against my will remains the most scarring of my traumas.[p. 110]
Outro tema sensível levantado pela autora é a questão de ter, ou não ter, filhos. Wang desenvolve bastante esta questão que a assombrou - e talvez ainda assombre - duramente. Se, por um lado, em vários momentos da sua vida, sentiu o instinto maternal a dar sinais de si, manteve-se (quase) sempre convicta de que jamais traria ao mundo uma criança quando não tinha a certeza de estar sempre capaz de cuidar dela. A questão da maternidade é altamente delicada para quase todas as mulheres, tanto pelas raízes biológicas que trazemos entranhadas no nosso corpo, como pela carga cultural agregada ao nosso género. Esta pré-conceções estão, lentamente, a progredir, mas não podemos negar que ainda tem uma marcada influência nas nossas vidas, maneiras de pensar e, em última instância, decisões. A par disso, pensar nas mães que seremos - ou seríamos -, quase sempre nos leva a recordar as nossas próprias mães, se nos tornámos naquilo que elas sonhavam que fôssemos, ou se, pelo contrário, furámos as suas expectativas e tornámo-nos... em algo diferente. Nesta longa reflexão sobre o inevitável nó entre ser potencial mãe e ser filha, Wang não tem problemas em se despir das suas defesas, mostrando-se tão vulnerável quanto é possível, chegando a colocar a derradeira questão:A cousin to my mother's remorse and guilt is an invisible, additional question that I have for her, that being: would it have been better if I'd never been born? [p. 93]
O último capítulo traz-nos alguma leveza de espírito, uma vez que trata daquilo que trouxe à própria autora alguma tranquilidade. Depois de anos a lidar com uma doença que controla mais a pessoa do que se deixa ser controlada, Wang foi descobrindo quais os sinais de alerta que deve identificar no seu comportamento. Identificando esses sinais atempadamente, Wang procura ajuda dos profissionais que já se tornaram da sua confiança e pode, por vezes, impedir uma escalada de sintomatologia psicótica. Par além disso, a autora foi procurando significado na sua experiência de vida, processando as suas vivências com intenção e aprendizagem. Essas ligações, esse autoconhecimento, deram sentido à sua vida, uma sensação de que não está estagnada e que, embora a sua doença seja crónica, ela não é o seu diagnóstico e é capaz de evoluir, tanto quanto outra pessoa.
I never did become a Catholic, but in my illness I became hungry to understand suffering; if I could understand it, I could perhaps suffer less, and even find comfort in the understanding, (...) In suffering, I am always looking for a way out. [p. 183]
Avaliação: 4/5


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